'A electrificação com fontes renováveis é um caminho estratégico e eficaz que os formuladores de políticas podem adoptar para a promoção, simultânea, da segurança energética, da competitividade económica, do desenvolvimento industrial e das metas climáticas'
A electrificação representa um dos vectores mais robustos de transformação estrutural dos sistemas energéticos e uma solução eficaz de longo prazo - uma opção “sem arrependimentos” - no caminho para a descarbonização, que também promove objetivos econômicos e sociais. Quando combinada com a implementação de energias renováveis, redes modernas, flexibilidade do sistema e melhorias na eficiência energética, ela pode reduzir significativamente a demanda por combustíveis fósseis nos setores de transporte, edificações e indústria.
Essa abordagem é descrita no relatório da IRENA em apoio às presidências da COP30 e da COP31: Transition away of fossil fuels: a roadmap powered by renewables, electrification and grid enhancement. A meta global anunciada pela Presidência da COP31 de que 35% do consumo final de energia seja suprido por electricidade até 2035 é detalhada na estrutura analítica apresentada no relatório, assim como a expansão da capacidade de geração renovável necessária, e os esforços de eficiência energética e investimentos em redes.
A queda nos custos das tecnologias de energia renovável nas últimas decadas aumentou significativamente a viabilidade da electricidade limpa. A energia solar e a eólica tornaram-se duas das fontes mais competitivas em termos de custos para a nova geração de electricidade em muitas regiões; os custos caíram mais de 88% para a energia solar fotovoltaica e 56% para a eólica terrestre no período de 2010 a 2025, permitindo que a electricidade limpa represente uma parcela maior no atendimento à demanda final de energia.
Além da relação custo-benefício, a electrificação com renováveis atende a múltiplos objectivos políticos simultaneamente: contribui para a mitigação das mudanças climáticas ao reduzir emissões; aumenta a segurança e a resiliência energética ao reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados, ao mesmo tempo em que amplia a utilização de renováveis e reduz o desperdício de energia gerada (curtailment); e fortalece a competitividade económica por meio da criação de novas cadeias industriais de valor e da inovação tecnológica.
No entanto, a transição energética global exigirá uma acção coordenada não apenas para transformar a oferta e o consumo de energia em todo o mundo, mas também para viabilizar infra-estruturas — redes eléctricas, estradas, portos, aeroportos e centros de abastecimento —, evoluir as cadeias de suprimentos e reformular os desenhos de mercado e as políticas públicas. Também é necessário planear a desactivação, a reconversão ou a modernização de activos existentes de combustíveis fósseis, como usinas de energia, refinarias e infra-estruturas de transporte. Além disso, com a queda na demanda por combustíveis fósseis, surgirão novos padrões comerciais centrados em electricidade, hidrogénio, produtos de uso intensivo de energia e materiais estratégicos e críticos para tecnologias ligadas à transição. As nações que dependem da exportação ou da importação de combustíveis fósseis enfrentarão tanto desafios quanto oportunidades ao formular estratégias de diversificação económica e de participação nas cadeias de valor emergentes de energia limpa.
Tudo isso exigirá investimentos sem precedentes em infra-estrutura, particularmente em geração de energia renovável, redes eléctricas, armazenamento e digitalização. Portanto, a cooperação internacional será fundamental para viabilizar a transição global, especialmente nas economias emergentes e em desenvolvimento. Neste contexto, vale destacar a importância de espaços para fomentar a aceleração da transição enegética, como os promovidos pela IRENA nas suas Assembleias, e como os promovidos pela ALER, em especial através da colaboração entre países de mesmo idioma e desafios comuns, com o intuito de promovem o desenvolvimento de conhecimento, a capacitação e a facilitação de implantação de projectos e a cooperação internacional.
Ricardo Gorini
Director de Estudos Energéticos e Socio-económicos na IRENA
