RENMOZ in Europe: pipeline, investimento e parcerias
“Em Perspectiva” é a nova rubrica de opinião da ALER, onde são analisados os últimos acontecimentos, tendências e debates que estão a moldar o sector da energia nos países de língua portuguesa.
Neste edição especial, Pedro Clemente (Director de Operações da ALER), faz o balanço do evento RENMOZ in Europe: as mensagens políticas, o papel do Global Gateway, o pipeline de projectos de energia apresentado por Moçambique e o impacto do matchmaking no deal‑making. Para além disso, faz uma antevisão da RENMOZ 2026, a acontecer em Junho, em Maputo.
A conversa que dá origem a este artigo está também disponível em formato podcast, no Spotify.
Pedro, comecemos pelo princípio: Este RENMOZ in Europe foi organizado pela AMER e pela ALER, em parceria com o GET.invest, com apoio da União Europeia e das autoridades públicas moçambicanas, no âmbito do Global Gateway. O que é que distingue este RENMOZ in Europe das edições que têm acontecido em Maputo e por que foi tão importante realizar este evento em Bruxelas?
Esta edição da RENMOZ foi particularmente inovadora. Pela primeira vez, um evento que desde 2021 se realiza em Maputo saiu de Moçambique e foi levado até à Europa. A escolha de Bruxelas, centro político e financeiro da União Europeia, foi estratégica: permitiu criar um ponto de encontro directo entre o Governo e as instituições moçambicanas do sector energético e os decisores, financiadores, investidores e empresas europeias.
O evento reuniu mais de 200 participantes, provenientes de 20 nacionalidades e 12 Estados‑Membros, num espaço pensado para apresentar o pipeline de projectos prioritários do país e promover interacções técnicas e empresariais. Para além das sessões institucionais, houve momentos dedicados à apresentação detalhada dos projectos, a reuniões B2B, a encontros bilaterais e a sessões de matchmaking entre as instituições moçambicanas e o sector privado europeu.
O objectivo foi claro: projectar o potencial do sector energético de Moçambique, criar oportunidades de diálogo técnico, permitir o esclarecimento de questões e abrir caminho a futuros memorandos de entendimento, parcerias e novos investimentos.
A presença do Presidente da República de Moçambique deu um impulso adicional ao encontro, transmitindo confiança, compromisso político e reforçando a credibilidade do pipeline apresentado. Esse envolvimento ao mais alto nível marcou o arranque deste encontro e definiu o tom para os dois dias de evento.
A presença do Presidente Daniel Chapo deu realmente outro peso ao arranque do evento. Que pontos estratégicos destacou o Presidente?
Para além do importante simbolismo político da presença do Presidente no início do evento, a sua intervenção foi também essencial e muito esclarecedora. Destacou a visão estratégica de Moçambique para o sector da energia, assente nos pilares da Estratégia de Transição Energética, e sublinhou igualmente um ponto muito importante: a ambição do país se afirmar como um hub energético regional.
E, para isso, mais do que uma ambição, o Presidente destacou o esforço que o país tem vindo a fazer para melhorar o ambiente de negócios, reforçar a transparência e a previsibilidade no que diz respeito ao papel do sector privado e dos investidores. Tudo isto com o objectivo de alavancar e acelerar o crescimento e impulsionar os projectos que já estão previstos avançar em breve.
E do lado europeu, como é que a União Europeia enquadrou este evento no âmbito do Global Gateway?
A União Europeia demonstrou um enorme compromisso e empenho com este evento, que foi organizado no âmbito do Global Gateway. A Delegação da União Europeia em Moçambique teve um papel preponderante, ao dinamizar os Estados‑Membros, mobilizar recursos e coordenar toda a dinâmica Team Europe associada a esta iniciativa.
O objectivo foi precisamente aproximar, o mais rapidamente possível, o pipeline de projectos e as oportunidades de Moçambique das linhas de financiamento europeu e do sector privado europeu, criando condições para que esta aproximação aconteça de forma mais directa e eficiente.
Há um histórico importante de cooperação entre a União Europeia e Moçambique, mas ainda há muito caminho a percorrer. E, nesse sentido, iniciativas como esta são fundamentais. Destaco também a intervenção de Stefano Signore, da Direcção‑Geral de Parcerias Internacionais da Comissão Europeia, que referiu a RENMOZ in Europe como um exemplo concreto de como reforçar esta cooperação e aprofundar a relação UE–Moçambique.
No essencial, ficou claro que a União Europeia quer estar ao lado de Moçambique na sua transição energética, apoiando o país na mobilização de investimento e no avanço dos seus projectos prioritários.
Um dos grandes destaques deste evento foi a apresentação de um pipeline estruturado de projectos. O que é que isto significou na prática?
Esta edição da RENMOZ in Europe esteve ancorada num aspecto central: a apresentação do pipeline de projectos prioritários de Moçambique para o sector energético. Este trabalho começou meses antes do evento, com as instituições moçambicanas – EDM, FUNAE, HCB e o Gabinete de Implementação do Projecto Hidroeléctrico de Mphanda Nkuwa – a trabalhar em conjunto com a equipa organizadora na preparação, organização e estruturação das respectivas carteiras de projectos.
Durante o evento, essas carteiras foram apresentadas em breakout sessions, onde os projectos solares, hidroeléctricos, de transmissão e de mini‑redes foram detalhados de forma técnica. Estas sessões permitiram oferecer uma visão transversal das oportunidades de investimento e de financiamento existentes no país.
Ao longo das breakout sessions, houve espaço para questões técnicas e financeiras, permitindo aos participantes perceber o estado de maturidade de cada projecto e identificar as oportunidades concretas para o sector privado se envolver, apostar e aprofundar a sua presença no mercado moçambicano.
Um dos elementos mais diferenciadores deste evento foi precisamente o foco no matchmaking. Que impacto tiveram estas reuniões estruturadas e de que forma é que elas ajudam a abrir caminho ao deal-making?
Este evento foi pensado e estruturado precisamente para promover o encontro entre as instituições moçambicanas, as empresas privadas e os financiadores europeus. A intenção foi criar espaços e condições de trabalho reais, que permitissem aos participantes ir além de um contacto superficial e avançar para reuniões de alinhamento e de conteúdo técnico.
Para muitos investidores e empresas europeias, esta foi a primeira oportunidade de falar directamente com as instituições moçambicanas responsáveis pelo pipeline de projectos. O objectivo era dar os primeiros passos para transformar o matchmaking em deal-making: não apenas iniciar conversas, mas aprofundar oportunidades de parceria e investimento.
O formato revelou‑se muito bem‑sucedido. Foram agendadas mais de 130 reuniões, onde ficou evidente a forte apropriação que as instituições moçambicanas têm dos seus projectos e a capacidade para discutir aspectos técnicos, financeiros e estratégicos. Estas interacções permitiram explorar de forma concreta como novos parceiros europeus – ou parceiros já existentes – podem apoiar a implementação do pipeline e acelerar a transição energética de Moçambique.
Agora olhando para um panorama mais alargado: por que é que este evento é tão importante para Moçambique e também para a ALER?
Diria que este evento foi realmente muito bem conseguido e deu a Moçambique uma enorme projecção e visibilidade internacional. Ao realizar-se em Bruxelas, no centro da Europa, foi possível aproximar o país do sector privado e dos investidores europeus, mostrando não só a sua preparação institucional como também a visão estratégica, o esforço e o compromisso com o pipeline de projectos prioritários.
Este encontro permitiu demonstrar a maturidade e a ambição do país, ao mesmo tempo que procurou acelerar a implementação desses projectos, criando condições para que sejam colocados no terreno o mais rapidamente possível, em parceria com empresas e entidades europeias. Foi um momento importante de aproximação e visibilidade, que consideramos apenas o primeiro passo de um processo contínuo. A intenção é continuar este trabalho e esta aproximação entre a Europa e Moçambique, para acelerar a transição energética do país.
Ficou também demonstrado que o formato de Business Forums promovido pela ALER funciona. Há um valor acrescentado em criar estes espaços de encontros estruturados, com um pipeline de projectos bem preparado e apresentado, e com a possibilidade de cruzar equipas técnicas, instituições públicas, investidores e decisores num mesmo espaço, com tempo e condições para troca de ideias e exploração de oportunidades. Este é, sem dúvida, um modelo que pode ser replicado pela ALER noutros países da nossa comunidade de países de língua portuguesa.
E o que é que podemos esperar da RENMOZ 2026 em Maputo?
Esta RENMOZ in Europe foi, na prática, o ponto de partida para todo o caminho que agora conduz ao RENMOZ 2026, que terá lugar em Maputo, de 9 a 12 de Junho. Esse próximo encontro será organizado em conjunto com o EU–Moçambique Global Gateway Business Forum e terá uma escala muito maior, com quatro dias inteiros de sessões institucionais, debates técnicos, áreas de exposição, momentos de networking, deal‑making, visitas de campo e side events.
A ideia central é que o trabalho iniciado em Bruxelas continue a desenvolver‑se ao longo dos próximos meses. O pipeline de projectos será aprofundado e amadurecido, e o diálogo entre o sector privado europeu e as instituições moçambicanas vai prosseguir, através de reuniões exploratórias, contactos técnicos e preparação prévia por meio da plataforma do evento.
O objectivo é que, quando chegarmos a Maputo, possamos consolidar e materializar muitas das conversas iniciadas em Bruxelas. Queremos chegar à RENMOZ 2026 já com parcerias encaminhadas, apresentações de projectos mais detalhadas, lançamentos de iniciativas e avanços concretos em torno dos projectos estruturantes e prioritários para o sector energético moçambicano. Tudo isto com o propósito de dar passos cada vez mais rápidos rumo à transição energética de Moçambique, que é ambiciosa, mas perfeitamente alcançável.
