Acesso à energia em África: o papel das soluções descentralizadas segundo a TTA
Desde a sua fundação em 1986, a Trama TecnoAmbiental (TTA) trabalha para promover o acesso a serviços de energia com um modelo holístico, baseado em energias renováveis e soluções autónomas descentralizadas, visando aumentar a resiliência das comunidades. Com quatro décadas de experiência acumulada e projectos em mais de 100 países, a TTA consolidou-se como referência no sector de acesso à energia.
Nesta entrevista, Georgios Xenakis, Coordenador de Equipa da Unidade de África da TTA, partilha as lições aprendidas ao longo deste percurso, a visão da empresa sobre o papel das soluções descentralizadas no acesso à energia e a actuação recente em países como a Guiné-Bissau e Moçambique.
A TTA celebra 40 anos de actividade. O que representa este marco e como evoluiu a organização ao longo destas quatro décadas?
Quarenta anos de trabalho no terreno representam, acima de tudo, uma acumulação extraordinária de conhecimento prático. A TTA nasceu com a convicção de que o acesso à energia é um direito fundamental, e esse propósito guia-nos desde o início, atualmente sob guia do SDG7 das Nações Unidas. Ao longo deste tempo, evoluímos das primeiras experiências com sistemas solares fotovoltaicos piloto para projectos cada vez mais complexos.
O que nos distingue é a abordagem holística e integrada: não nos limitamos à engenharia. Trabalhamos desde o planeamento nacional e o desenvolvimento regulatório até aos estudos de viabilidade, a engenharia de detalhe, a supervisão de construção, o comissionamento e a operação e manutenção – sempre incorporando as dimensões económica, social e ambiental. Acreditamos que esta visão holística é o que garante que os projectos perdurem e gerem impacto real nas comunidades.
O nosso histórico em mais de 100 países – na América Latina, em África, na Oceânia, na Europa e na Ásia – permitiu-nos desenvolver uma compreensão profunda da diversidade de contextos em que operamos. Cada projecto é diferente, cada comunidade tem as suas necessidades específicas, e essa é a riqueza do trabalho que fazemos.
Qual é, na sua perspectiva, o papel central das energias renováveis descentralizadas para o acesso à energia em África?
O acesso à energia é um catalisador de desenvolvimento. Quando uma comunidade tem acesso à electricidade fiável, muda tudo: as crianças podem estudar à noite, os centros de saúde podem conservar vacinas, os negócios podem crescer, a água pode ser bombeada e tratada de forma segura. Não é apenas uma questão técnica – é uma questão de dignidade e oportunidade. Além disso, garantindo o acesso à energia, garantimos também resiliência climática, importante no contexto actual.
Em África, onde milhões de pessoas ainda vivem sem acesso à electricidade, as soluções descentralizadas são frequentemente a única resposta viável a curto e médio prazo. A extensão da rede nacional implica investimentos importantes, que não são economicamente justificáveis para comunidades remotas, com baixa densidade populacional. As mini-redes solares e os sistemas solares autónomos oferecem uma alternativa mais rápida, mais acessível e, principalmente, mais resiliente.
A nossa convicção, reforçada por quatro décadas de experiência, é que a electrificação universal de África só será alcançada se combinarmos a expansão da rede com estas soluções descentralizadas para as comunidades mais remotas. Não é uma questão de escolher uma abordagem em detrimento da outra – é uma questão de ter a inteligência de aplicar a solução certa em cada contexto.
Neste momento, o debate sobre combustíveis importados e os impactos geopolíticos ganhou nova relevância. Como vê este contexto à luz da transição energética em África?
A dependência de combustíveis importados é uma vulnerabilidade estrutural de muitos países africanos. Esta dependência expõe as economias a choques externos: flutuações nos preços do petróleo, crises de abastecimento e tensões geopolíticas. O impacto das guerras actuais, por exemplo, já se fez sentir de forma particularmente aguda nos países mais dependentes de importações energéticas, com subidas abruptas nos custos e perturbações no abastecimento.
Este contexto reforça, de forma inequívoca, o argumento a favor das energias renováveis locais. Um sistema solar descentralizado com armazenamento em bateria não está sujeito a crises de abastecimento internacional. A energia do sol é local, fiável e renovável. Investir em energias limpas locais não é apenas uma escolha ambiental – é uma escolha de soberania energética e de resiliência económica.
Para as comunidades rurais e para as instituições públicas como hospitais e escolas, esta realidade é ainda mais evidente. Um gerador a diesel implica custos operacionais permanentes e incertos, que podiam ser utilizados para os serviços de saúde e de educação. Um sistema solar tem custos iniciais que, uma vez amortizados, garantem décadas de energia limpa e previsível. Por isso, a instalação de sistemas solares fotovoltaicos em hospitais, indústrias, etc. que utilizam diesel deve ser urgente, para promover resiliência às operações e libertar recursos para outros investimentos (por exemplo, para que hospitais possam deixar de gastar em diesel e direcionar esses recursos para o reforço dos serviços de saúde).
Pode partilhar alguns exemplos concretos de projectos da TTA em África?
A TTA já trabalhou na maioria dos países africanos, incluindo países lusófonos, como Guiné-Bissau e Moçambique.
Na Guiné, os nossos projectos começaram em 2013, com apoio técnico para a criação da primeira mini-rede do país, em Bambadinca. A seguir, realizámos vários estudos para sistemas solares descentralizados para outras zonas do país, incluindo Cacheu, Gabu, Oio e Bafatá. Neste momento, estamos a trabalhar no âmbito do projecto SESAP, financiado pelo Banco Mundial, na electrificação de centros de saúde com sistemas fotovoltaicos autónomos, em todas as regiões do país.
Em Moçambique, a nossa actuação começou em 2014 para a Delegação da União Europeia e tem abrangido vários estudos de planeamento e desenho de soluções descentralizadas. Neste momento, estamos a trabalhar com os nossos parceiros de forma mais específica com usos produtivos de energia (PUE), no âmbito do projecto da ENABEL, para analisar os benefícios que podem trazer para a viabilidade económica das mini-redes e para uma participação mais activa do sector privado. Neste âmbito, o nosso colega Alfredo Pais, voltará a participar na próxima edição do RENMOZ e do Business Forum Moçambique-EU, eventos que acompanhamos com muito interesse para partilhar as nossas experiências, conhecer as últimas iniciativas em curso no país e reforçar os laços com os nossos parceiros locais e internacionais.
A TTA é também co-organizadora da Conferência S-@ccess, dedicada às tecnologias solares e mini-redes para o acesso à energia. Que balanço faz das edições anteriores e o que podemos esperar da próxima edição, prevista para Setembro de 2027?
Na nossa visão de nos tornarmos uma organização de referência, gerando impacto para o sector, o S-@ccess é, para nós, muito mais do que uma conferência. É um espaço de encontro entre profissionais que trabalham no terreno – engenheiros, consultores, financiadores, académicos, decisores políticos – com o objectivo concreto de partilhar experiências práticas e aprender uns com os outros.
A edição de 2026, que decorreu este mês, confirmou que existe uma comunidade global de actores e profissionais do sector da energia descentralizada que valoriza este tipo de intercâmbio, demonstrando um interesse particular na intersecção entre acesso à energia e diferentes sectores como saúde, educação e usos produtivos, mas também nas questões de resiliência dos combustíveis importados no contexto geopolítico actual. Nesta edição, tivemos também o prazer de contar com a participação de várias instituições moçambicanas, como a ARENE, o FUNAE e a Universidade Eduardo Mondlane.
É por isso que já podemos anunciar a continuidade desta iniciativa, com a próxima edição planeada para Setembro de 2027. Queremos que a conferência seja cada vez mais um catalisador de mudança: não apenas um espaço de partilha de conhecimento, mas um motor de colaboração e de projectos concretos.
Que mensagem deixaria aos leitores da Newsletter da ALER sobre o papel das energias renováveis descentralizadas no futuro energético de África?
A mensagem é simples, mas urgente: as energias renováveis descentralizadas não são uma solução de segunda linha para quem não tem acesso. São uma solução de futuro, que combina viabilidade económica, resiliência, impacto social e sustentabilidade ambiental.
Quarenta anos de trabalho da TTA em todo o mundo ensinaram-nos que a tecnologia não é o principal obstáculo – os sistemas solares funcionam. O que é necessário é vontade política, financiamento adequado e uma abordagem que coloque as comunidades no centro das decisões.
