6 de Outubro 2026

Da expansão solar à flexibilidade: o novo capítulo da transição energética

A fonte solar fotovoltaica vive uma nova etapa de sua trajectória. No mundo, a energia solar acaba de superar a marca histórica de 3 terawatts (TW) de capacidade instalada operacional, consolidando-se como a principal protagonista da expansão das renováveis globalmente. Em 2025, a tecnologia fotovoltaica foi responsável por 77% de toda a capacidade renovável adicionada globalmente e alcançou 2.778 terawatts-hora (TWh) de geração, cerca de 9% da demanda mundial de electricidade, segundo dados da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA).

 

Os números mostram a dimensão dessa transformação, mas também apontam para um novo desafio: sustentar a expansão solar requer infraestrutura eléctrica adequada, regras de mercado condizentes com as características dos modelos de negócio e tecnologias capazes de apoiar uma participação cada vez maior de fontes renováveis variáveis nas matrizes eléctricas dos países.

 

O movimento de transformação em curso também reforça a importância da cooperação e da parceria entre entidades sectoriais de diferentes mercados. Neste sentido, a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR) e a ALER vêm actuando de forma colaborativa para promover o desenvolvimento da fonte solar. Adicionalmente, têm defendido a integração de soluções de armazenamento de electricidade nas suas áreas de actuação,compartilhando experiências, conhecimento técnico e agendas de desenvolvimento para acelerar a transição energética.

 

Essa actuação ganha ainda mais relevância por meio do Global Solar Council (GSC), organização que reúne associações nacionais e regionais do sector solar e de armazenamento de energia eléctrica e da qual tanto a ABSOLAR quanto a ALER são membros activos.

 

O Brasil, por sua vez, tem papel estratégico nesse cenário. A fonte solar já é a segunda maior da matriz eléctrica nacional, com 28% da capacidade instalada do país. Desde 2012, o sector trouxe mais de R$ 328,2 bilhões em novos investimentos e gerou mais de 2,2 milhões de empregos verdes locais e de qualidade, além de ter evitado a emissão de 127,5 milhões de toneladas de CO2na geração de eletricidade.

 

Recentemente, o mercado solar brasileiro enfrenta uma desaceleração. Foram adicionados 14,5 GWp de potência solar em 2025, ante 18,9 GWp em 2024, uma queda de 23%. Esse movimento não diminui a importância estratégica da solar. Ao contrário: indica que o próximo ciclo de crescimento dependerá cada vez mais da capacidade do sector elétrico brasileiro se adaptar à nova realidade da geração renovável cada vez mais representativa. É justamente nesse ponto que o armazenamento de energia eléctrica ganha protagonismo e se apresenta como um aliado estratégico da fonte solar.

 

O Brasil começa a construir as bases desse novo mercado. Os primeiros dois Leilões de Reserva de Capacidade na forma de Armazenamento (LRCAP Armazenamento), previstos para 2 e 4 de Dezembro de 2026, receberam a inscrição de mais de 6 mil projectos interessados em participar dos certames, somando impressionantes 296,9 GW de capacidade de armazenamento em baterias.

 

Esse volume demonstra o interesse dos empreendedores e investidores na iniciativa brasileira e a maturidade alcançada pela tecnologia. Neste sentido, a ABSOLAR tem desempenhado papel estratégico para a construção dessas bases no Brasil, tendo actuado em prol dos leilões e contribuído para o aprimoramento das regras e condições de contratação estabelecidas pelo governo brasileiro.

 

A própria construção regulatória desse mercado vem avançando em diferentes frentes. As Consultas Públicas nº 022 e 023/2026, abertas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), discutiram as minutas dos primeiros editais para contratação de sistemas de armazenamento em baterias, que terão contratos de 15 anos e início de suprimento previsto para Agosto de 2028.

 

Já a Consulta Pública nº 032/2026 trata do primeiro leilão de transmissão com contratação de armazenamento por baterias no Sistema Interligado Nacional (SIN), previsto para Abril de 2027. O movimento mostra que o armazenamento começa a ser incorporado não apenas como recurso associado à geração, mas também como infraestrutura para ampliar a confiabilidade e a flexibilidade do sistema eléctrico.

 

Deste modo, essa agenda não é caso isolado e deve ganhar continuidade nos próximos anos. Recentemente, o Ministério de Minas e Energia (MME) anunciou o cronograma de leilões do sector eléctrico para o triénio 2027-2029, com a previsão de pelo menos um Leilão de Reserva de Capacidade por ano aberto à participação de sistemas de armazenamento em baterias. Com isso, o Brasil terá leilões para armazenamento em 2026, 2027, 2028 e 2029, trazendo maior previsibilidade aos empreendedores, investidores e à cadeia produtiva. Essa continuidade será estratégica para posicionar o Brasil como um relevante mercado de armazenamento nos próximos anos.

 

A regulação brasileira também dá sinais positivos de avanços em outras frentes. Em Novembro de 2025, a Lei nº 15.269/2025 incorporou a tecnologia de armazenamento de energia eléctrica ao arcabouço do sector eléctrico e estabeleceu incentivos tributários até 2030 para sistemas de baterias de grande porte. Em Junho de 2026, a ANEEL regulamentou os procedimentos para sistemas de armazenamento autónomos, por meio da Resolução Normativa nº 1.161/2026, e estabeleceu regras para a inclusão de armazenamento em centrais geradoras. Em Setembro, a Agência abriu a Consulta Pública nº 033/2026, propondo modernizar as regras de conexão para integrar, de forma mais inteligente, geração solar distribuída, baterias, veículos eléctricos e outros recursos energéticos distribuídos.

 

A modernização regulatória alcança também a própria operação do sistema. A Consulta Pública nº 034/2026 propõe actualizar os critérios de classificação operacional das usinas do SIN, considerando a crescente complexidade da operação e a necessidade de maior coordenação entre agentes e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Ao mesmo tempo, a Consulta Pública nº 036/2026, aberta em Outubro, busca adequar as regras de acesso à transmissão à Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST), estabelecida pelo Decreto nº 12.772/2025. São discussões fundamentais para que a expansão da geração renovável ocorra de forma coordenada com a evolução da infraestrutura eléctrica.

 

Essa modernização é urgente porque os desafios da expansão já aparecem concretamente na operação do sistema eléctrico brasileiro. Projectos de geração distribuída enfrentam dificuldades de conexão em áreas com restrições de rede e gargalos relacionados à inversão de fluxo de potência.

 

Há ainda o desafio dos cortes de geração renovável (curtailment), que atingem grandes usinas solares e eólicas no Brasil. Nesse tema, houve um avanço regulatório importante. Em 6 de Outubro, a ANEEL aprovou uma nova regra para organizar a ordem dos cortes de geração, tema discutido desde a Consulta Pública nº 045/2019. A norma busca trazer mais transparência e previsibilidade à operação e estabelece critérios para distribuir progressivamente os impactos dos cortes entre diferentes fontes e agentes.

 

A directriz regulatória, contudo, não elimina os desafios económicos associados ao curtailment. O sector ainda precisa assegurar mecanismos adequados para tratar os impactos financeiros dos cortes sobre os empreendimentos afectados. Em paralelo, o Governo Federal avançou na implementação de um mecanismo de compensação para cortes elegíveis ocorridos entre Setembro de 2023 e Novembro de 2025, nos termos da Lei nº 15.269/2025, por meio da Portaria MME nº 140/2026.

 

Nesse contexto, as baterias e outras soluções de flexibilidade se apresentam como parte relevante da solução para a expansão sustentável da fonte solar. Armazenar electricidade nos momentos de maior geração e disponibilizá-la quando o sistema precisa é uma forma de aproximar oferta e demanda, reduzir restrições operacionais, aumentar a segurança eléctrica e aproveitar melhor os investimentos já realizados em geração e infraestrutura.

 

O acesso a financiamento para baterias também começa a avançar. No Plano Safra 2026/2027, linhas de crédito como Inovagro e Prodecoop passaram a contemplar, pela primeira vez, investimentos em sistemas de armazenamento de energia eléctrica, resultado das contribuições da ABSOLAR ao Governo Federal. A medida amplia as possibilidades de integração entre geração renovável, armazenamento e actividades produtivas no agro-negócio, um dos sectores produtivos mais relevantes para a economia brasileira.

 

O Brasil tem, portanto, uma oportunidade concreta: transformar os desafios da expansão solar numa agenda de modernização do sector eléctrico. Para isso, será necessário combinar novos investimentos em infraestrutura eléctrica e geração com armazenamento, regras de conexão mais eficientes, mecanismos de flexibilidade, acesso adequado às redes, instrumentos de financiamento competitivos e uma regulamentação capaz de oferecer sinais económicos adequados e previsibilidade aos empreendedores e investidores.

 

A transição energética não termina com a instalação de sistemas solares. O próximo capítulo será definido pela capacidade de integrar, armazenar e utilizar essa electricidade limpa e competitiva de maneira cada vez mais inteligente, flexível e sintonizada aos anseios da sociedade.

 

Rodrigo Lopes Sauaia
Presidente Executivo da ABSOLAR e Membro do Conselho Directivo do Global Solar Council