Dados e conhecimento: a base da escada das transições energéticas
“Em Perspectiva” é a rubrica de opinião da ALER, onde são analisados os últimos acontecimentos, tendências e debates que estão a moldar o sector da energia nos países de língua portuguesa.
Nesta edição, Isabel Cancela de Abreu (Directora Executiva da ALER) reflecte sobre o papel dos dados e do conhecimento na aceleração das transições energéticas nos países de língua portuguesa.
Falamos da importância dos sistemas de informação para apoiar o planeamento, atrair investimento e acompanhar a implementação de políticas públicas. Destacamos exemplos recentes de Moçambique, Guiné Bissau, Angola, Cabo Verde, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, Portugal e Brasil, e analisamos como relatórios, balanços energéticos e plataformas de monitorização ajudam a transformar metas em resultados concretos.
A conversa que dá origem a este artigo está também disponível em formato podcast, no Spotify.
Isabel, este mês, o tema do nosso podcast é um pouco diferente. Porquê falar de dados e conhecimento?
A escolha deste podcast foi inspirada não só pelo editorial do Rodrigo da ABSOLAR e pelos incríveis números da evolução do mercado solar do Brasil, pelos dados publicados em Moçambique e Guiné Bissau, mas também pelo relatório apresentado durante o Global Renewables Summit, na New York Climate Week, que acompanha o progresso mundial em direcção às metas de renováveis para 2030 e que vem na sequência do relatório do Tracking SDG 7, que também foi notícia há uns meses atrás na nossa newsletter, que acompanha o progresso mundial do objectivo para o desenvolvimento sustentável nº 7 sobre o acesso à energia.
Mais do que enumerar e analisar os números destes relatórios, nesta edição pareceu-nos interessante falar da importância dos dados e do conhecimento para as transições energéticas.
Sem dados não conseguimos medir a evolução, definir prioridades, planear ou acompanhar a implementação. No fundo, os dados permitem-nos conhecer onde estamos a ter sucesso e onde ainda precisamos de fazer mais.
E os dados permitem também introduzir uma noção de urgência – um call to action – pois dão uma dimensão concreta à realidade, quantificam os desafios e permitem-nos perceber a distância que ainda temos de percorrer para chegar às metas que definimos e mobilizar os parceiros e recursos para lá chegar.
E quando falas em acompanhar e medir as transições energéticas, como é que os dados entram nesse processo?
Entram logo na base. Na ALER temos vindo a representar este processo através daquilo a que chamamos a “escada das transições energéticas”.
E relembro que na ALER introduzimos sempre esta nuance e falamos em transições energéticas, no plural, porque não existe uma única transição energética. Cada país tem a sua realidade, os seus recursos e os seus desafios e, portanto, o seu próprio caminho.
O primeiro degrau é precisamente conhecer a nossa realidade. É aí que entram os dados e o conhecimento: permitem-nos perceber onde estamos e qual é o nosso ponto de partida.
A partir daí, avançamos para as políticas, a legislação e o planeamento. Sabendo onde estamos e onde queremos chegar, conseguimos definir o que precisamos de fazer para lá chegar, adaptado à realidade de cada país ou região.
Depois vêm os projectos, porque é preciso transformar as políticas e o planeamento em projectos concretos e implementá-los no terreno.
Para isso precisamos também de liderança e capacitação, de pessoas e instituições capazes de transformar políticas em projectos e mobilizar parceiros e criar as condições para que esses projectos avancem.
E chegamos ao topo da escada: financiamento e investimento, porque sem os recursos financeiros necessários é impossível implementar os projectos.
No fundo, há aqui dois fluxos muito claros. Há um fluxo ascendente de informação: os dados estão na base e alimentam todas as etapas da escada e são também fundamentais para quem financia e investe, porque sem informação concreta sobre os mercados e os projectos é muito mais difícil tomar decisões de investimento.
E existe depois um fluxo descendente de financiamento e investimento. Sem investimento não implementamos os projectos, sem projectos não conseguimos gerar novos resultados e, sem resultados, não temos actualizações dos dados.
E é por isso que os dados são tão importantes: estão na base de todo o processo e permitem subir a escada das transições energéticas.
E, olhando para a própria história da ALER, este primeiro degrau – o conhecimento – sempre esteve muito presente. Que contributo temos dado nesta área?
Na realidade, produzir e divulgar informação de mercado está no ADN da ALER. Foi uma das primeiras áreas em que começámos a trabalhar e foi também uma das que mais contribuiu para dar visibilidade à associação.
Hoje temos três pilares de actuação e o primeiro é precisamente “Mais do que informar, conhecer”.
Porque acreditamos que a informação só cria verdadeiro valor quando nos permite compreender os mercados e apoiar melhores decisões.
E fazemos isso, em primeiro lugar, através dos nossos relatórios e publicações. O primeiro grande produto pelo qual a ALER ficou conhecida foi o Relatório do Ponto de Situação das Energias Renováveis em Moçambique, cuja primeira edição foi publicada em 2016. Depois desenvolvemos trabalhos semelhantes para São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Angola.
Entretanto, evoluímos para produtos mais curtos e mais estratégicos. É o caso do Resumo: Renováveis em Moçambique, que já vai na quinta edição e que apresentámos recentemente na RENMOZ. Hoje é uma publicação de referência para o sector e permite acompanhar a evolução da transição energética no país.
Mas os nossos relatórios não se limitam às estatísticas. Procuramos juntar aos dados informação sobre o sector: quem são os principais stakeholders, como está organizado, quais são as políticas e o enquadramento regulatório.
E estamos agora a dar uma nova dimensão a este trabalho, com a identificação do pipeline de projectos. Foi uma das novidades que apresentámos na RENMOZ e que pretendemos também desenvolver para outros países.
Ou seja, estamos a subir a nossa escada: a informação que disponibilizamos começa nos dados, passa pelo enquadramento do sector, pelas políticas e pelo planeamento e chega agora também ao nível dos projectos.
Temos ainda a plataforma LER Renováveis, que funciona como um centro de documentação em língua portuguesa e reúne informação relevante, nacional e internacional, sobre energias renováveis e transições energéticas. É uma ferramenta gratuita que acho que merece ser mais conhecida.
No fundo, procuramos tornar a informação mais acessível. Muitas vezes os dados existem, mas estão dispersos por diferentes entidades, relatórios e plataformas. Nós procuramos reunir essa informação, cruzar fontes, trabalhá-la e apresentá-la de uma forma que seja mais fácil de consultar e interpretar.
E fazemos este trabalho sempre em colaboração com as associações nacionais, porque são elas que estão mais próximas da realidade dos seus próprios mercados.
Ou seja, não se trata apenas de ter mais dados, mas de conseguir transformar esses dados em conhecimento útil. E temos visto recentemente alguns avanços interessantes nos próprios países de língua portuguesa. Que exemplos destacarias?
Sim, e acho que essa é uma evolução muito positiva.
Em alguns países, como Portugal e Brasil, existe já uma longa tradição de produção e divulgação de estatísticas energéticas.
Em Portugal temos, por exemplo, as Estatísticas Rápidas das Renováveis e a publicação anual Energia em Números. No Brasil, além das publicações das instituições governamentais e das próprias associações de cada uma das tecnologias, em Agosto, foi publicado o Atlas Brasileiro da Transição Energética.
Mas também temos evoluções muito interessantes noutros países onde, até há pouco tempo, havia muito menos informação disponível.
Em Moçambique, por exemplo, para além do nosso Resumo: Renováveis em Moçambique, que produzimos em parceria com a AMER, estamos a assistir a uma produção mais regular de informação pelas próprias instituições nacionais, nomeadamente a ARENE através dos boletins trimestrais e o MIREME, através do Relatório Estatístico de Energia, e mais recentemente, do Radar da Estratégia de Transição Energética.
Em Timor-Leste está a ser construído o primeiro Balanço Energético Nacional, com o apoio do Centro de Energia da ASEAN.
E gostava de destacar o exemplo da Guiné-Bissau, onde foi validado em Setembro, o Balanço Energético Nacional de 2025, através da Célula Nacional do Sistema de Informação Energética. É um marco muito importante, porque há vários anos que não era publicado um Balanço Energético Nacional.
Mais do que ser apenas uma publicação estatística, este balanço permite-nos perceber muito melhor qual é a realidade energética do país – e, por vezes, os novos dados obrigam-nos até a rever aquilo que pensávamos saber.
Por exemplo, tínhamos frequentemente como referência uma taxa de acesso à electricidade de cerca de 35%. O novo balanço mostra que, afinal, a taxa é mais baixa: cerca de 31%, e que esse acesso está concentrado nas zonas urbanas, enquanto nas zonas rurais continua a ser praticamente inexistente. É um dado que muda bastante a leitura do desafio e permite adaptar melhor as estratégias, os planos e os projectos à realidade efectiva do país.
São iniciativas que queremos saudar, porque ter informação produzida regularmente pelas próprias instituições nacionais é fundamental para apoiar as decisões de política pública e dar maior previsibilidade aos mercados.
Tendo em conta que falámos há pouco do ODS 7, que estabelece a meta do acesso universal à energia até 2030 – e 2030 já está praticamente à porta – o que é que precisamos de fazer para garantir que estes dados se traduzem realmente no cumprimento das metas? Como é que conseguimos, através dos dados, continuar a subir a escada das transições energéticas?
Eu diria que há quatro prioridades fundamentais para garantir que os dados têm realmente este impacto transformador nas transições energéticas.
A primeira é a colaboração. Dificilmente uma única entidade consegue ter acesso a todos os dados necessários. Mesmo os ministérios ou as Direcções Nacionais de Energia, que têm muitas vezes a responsabilidade de os compilar e publicar, precisam de trabalhar com as utilities, os fundos nacionais de energia ou electrificação, os reguladores, o sector privado, os parceiros de desenvolvimento, as associações nacionais e também os institutos nacionais de estatística. Só através desta colaboração conseguimos garantir dados completos e actualizados.
A segunda é a harmonização: metodologias e regras comuns que garantam a qualidade dos dados e a sua comparabilidade ao longo do tempo.
A terceira é a regularidade. Não basta produzir dados num determinado ano. É preciso dar continuidade à sua produção e divulgação para conseguirmos acompanhar tendências, dar previsibilidade ao mercado e ajustar as políticas e os projectos à evolução da realidade.
E, por último, há a divulgação. Não basta termos relatórios guardados em gavetas ou publicados em sites que poucas pessoas consultam, nem disponibilizarmos simplesmente grandes volumes de dados sem tratamento.
É preciso garantir que os stakeholders têm acesso à informação e que os dados são trabalhados e apresentados de uma forma compreensível e apelativa, para que possam realmente ser utilizados nas decisões de planeamento e de investimento.
É também aqui que a ALER procura dar o seu contributo. Nos nossos Resumos temos muito cuidado não só na escolha e análise dos dados, mas também na forma como os apresentamos. E, depois, nos nossos eventos, procuramos destacar as principais tendências, os desafios, mas também as conquistas que os dados revelam.
Porque o objectivo não é produzir estatísticas por produzir.
É garantir que a informação está disponível para planear melhor, investir melhor e implementar melhor. A ideia é: conseguirmos transformar os dados em decisões, as decisões em projectos e os projectos em resultados – e continuarmos a subir a escada das transições energéticas para chegar às metas que definimos.
