30 de Julho 2026

Electrificar para desenvolver: a nova fase da transição energética

“Em Perspectiva” é a rubrica de opinião da ALER, onde são analisados os últimos acontecimentos, tendências e debates que estão a moldar o sector da energia nos países de língua portuguesa.

 

Nesta edição, Pedro Clemente (Director de Operações da ALER) reflecte sobre a forma como a electrificação está a assumir um papel cada vez mais estratégico no desenvolvimento económico dos países de língua portuguesa.

 

Falamos do movimento global Electrify Now, do crescimento das energias renováveis, da expansão das redes de transmissão e da forma como países como Angola e Moçambique estão a utilizar a energia para reforçar a integração regional, atrair investimento e impulsionar a industrialização. Mais do que uma questão de acesso à electricidade, a energia está a tornar-se uma ferramenta de competitividade, criação de emprego e transformação económica.

 

A conversa que dá origem a este artigo está também disponível em formato podcast, no Spotify.

 

 

Pedro, este mês o ponto de partida da conversa é o lançamento do movimento global Electrify Now. O que é exactamente esta iniciativa e por que está a mobilizar tantas organizações internacionais?

 

É um movimento global que junta governos, empresas e sociedade civil em torno de um único objectivo: acelerar o ritmo da electrificação.

 

Hoje a electricidade representa cerca de 21% do consumo final de energia no mundo, e a meta é chegar aos 35% até 2035, uma meta que foi, aliás, lançada pela própria Presidência da COP31. Isso significa mais do que quadruplicar o ritmo actual de electrificação.

 

O que torna esta iniciativa particularmente interessante é o alinhamento de vozes que está a gerar. A Agência Internacional de Energia, as Nações Unidas, a IRENA e coligações empresariais que representam biliões de dólares em receitas estão todas a defender a mesma ideia: electrificar deixou de ser apenas uma questão ambiental, é também uma questão de competitividade económica, segurança energética e desenvolvimento.

 

Durante muitos anos, a electrificação foi vista sobretudo como uma forma de reduzir emissões ou aumentar o acesso à energia. Hoje começa a ser encarada como uma alavanca para aumentar a produtividade, apoiar a industrialização, atrair investimento e criar emprego. Ou seja, a energia está a assumir um papel cada vez mais relevante como motor de desenvolvimento económico.

 

Falaste na meta de 35% até 2035. E os países de língua portuguesa, como estão a evoluir nas renováveis?

 

Os últimos relatórios da IRENA trazem dados muito animadores. Pela primeira vez, a capacidade renovável instalada no mundo ultrapassou a do carvão, e os custos continuam a cair: a solar está agora nos 44 dólares por MWh e a eólica nos 33.

 

Nos países de língua portuguesa isso reflecte-se: o Brasil cresceu 6,7% em capacidade renovável, Portugal 5,6%, Cabo Verde quase 26% e São Tomé e Príncipe 25%. A energia solar é o motor deste crescimento.

 

E talvez a principal leitura da ALER sobre estes números seja esta: o desafio já não está apenas em instalar mais capacidade renovável. O maior desafio está em utilizar essa energia para criar valor económico. Estamos a assistir a uma evolução do debate, que passa da geração para o impacto económico da energia.

 

A IRENA fala em custos cada vez mais competitivos, mas também diz que o principal obstáculo já não é tecnológico. É isso que se vê no terreno?

 

É exactamente isso. O potencial e a competitividade das renováveis já estão demonstrados nos países de língua portuguesa. Mas para acelerar é preciso ter a capacidade de estruturar projectos bancáveis, que sejam capazes de mobilizar financiamento e criar confiança junto dos investidores privados.

 

Um bom exemplo foi o RENMOZ in Europe, em Bruxelas, onde a ALER apoiou Moçambique a apresentar o seu pipeline estratégico directamente a investidores europeus. É este tipo de ligação entre projectos e capital que faz muitas vezes a diferença entre potencial e resultados concretos.

 

Produzir mais renováveis chega, ou é preciso mais?

 

A geração é essencial para avançar, principalmente quando existe uma espectativa de aumento de procura no futuro, mas não chega para transformar. Para além de produzir energia limpa ela tem de chegar às pessoas e às empresas.

 

É por isso que a aposta nas redes de transmissão e distribuição tem vindo a ter maior atenção: sem redes não há acesso, não há integração de renováveis, não há desenvolvimento.

 

E que exemplos concretos vemos este mês nesta aposta na transmissão?

 

Temos três casos muito claros.

 

Em Angola, o Estado concessionou por 30 anos o chamado Corredor Norte, uma linha de alta tensão com 800 MW de capacidade que vai ligar o Soyo à fronteira com a RDCongo, e assim expandir a rede de transporte à província de Cabinda e posicionar o país como fornecedor estratégico de energia nos mercados regionais da África Austral (SAPP) e da África Central (PEAC).

 

Na Guiné-Bissau, a rede eléctrica chegou finalmente a Bafatá e Gabú, através do projecto OMVG, depois de décadas sem acesso.

 

E em Timor-Leste foi inaugurada em Díli a nova Subestação de Comoro, com uma rede de transmissão e um projecto-piloto de cabos subterrâneos.

 

À primeira vista podem parecer apenas investimentos técnicos em infra-estruturas, mas representam algo mais, porque são essenciais para aumentar o acesso universal e aproveitar o potencial de transformar energia em prosperidade.

 

Falaste do Corredor Norte em Angola como uma linha para exportar energia. Isso não é apenas uma questão de infra-estrutura interna, é também uma aposta na exportação, certo?

 

Exactamente, e esse é talvez o ponto mais interessante. Angola não está só a reforçar o seu próprio sistema. Está a construir uma posição como exportador regional, vendendo electricidade à RDCongo através desta interligação.

 

Moçambique segue uma lógica semelhante, e de forma ainda mais assumida. Há poucos dias, o Presidente Daniel Chapo apresentou Moçambique como um futuro "hub energético regional", apoiado na expansão da Hidroeléctrica de Cahora Bassa, para responder a um défice de cerca de 10 mil megawatts na África Austral.

 

E isto é particularmente interessante porque mostra que a energia está a assumir uma nova função económica, como um activo económico capaz de gerar receitas para o país e reforçar o posicionamento estratégico regional dos países.

 

E há também países que beneficiam do oposto, ou seja, de já estarem ligados a essas redes regionais?

 

Sim, e a Guiné-Bissau é um bom exemplo disso. A rápida electrificação do país Gabú só está a ser possível porque o país está ligado ao projecto regional OMVG, que traz energia da Guiné, de produção hídrica, que é partilhada entre vários países da região.

 

A integração regional funciona nos dois sentidos. Ou seja, nem todos os países vão ser exportadores como Angola ou Moçambique mas estar integrado numa rede regional traz também benefícios directos a quem recebe essa energia.

 

Falamos muito de acesso e de exportação, mas o Presidente de Moçambique, Daniel Chapo, insistiu que a energia não deve servir apenas para exportar. Que papel tem a electrificação na criação de emprego e na industrialização?

 

Esse é um ponto central. A segurança energética é estratégica para o desenvolvimento de um país, para potenciar a economia interna, industrializar, criar emprego e reforçar a competitividade das empresas nacionais.

 

E isto liga-se directamente ao que vimos no movimento Electrify Now. As empresas e instituições que apoiam esta iniciativa defendem precisamente que a electrificação aumenta a competitividade, reduz o risco e cria melhores condições para o crescimento económico.

 

É essa combinação de energia mais barata, mais fiável e disponível para os sectores produtivos que permite falar de industrialização verde.

 

E diria que esta é uma das mensagens que a ALER tem vindo a defender: o sucesso da transição energética não será medido apenas pelos megawatts instalados ou pelas taxas de electrificação. Será medido pela capacidade de criar emprego, reforçar a competitividade das empresas e gerar mais valor socioeconómico.

 

E a digitalização entra também nesta equação?

 

Entra, e foi aliás um dos temas em destaque no EurAfrican Forum 2026, em Cascais, onde a ALER esteve presente. Na conversa entre os Presidentes de Portugal e de Moçambique ficou claro que as parcerias de longo prazo entre Europa e África vão passar cada vez mais pela transformação digital, pela tecnologia e pela capacitação dos jovens.

 

Sem electricidade estável não há digitalização, não há automação industrial nem competitividade digital.

 

E como é que tudo isto, no fundo, se traduz em desenvolvimento para as populações?

 

É exactamente aí que está a diferença. Quando falamos de usos produtivos da energia, estamos a falar do impulso para criação de novos negócios, de melhorar capacidade produtiva, ganhos de eficiência, tudo isto tem o potencial de criar emprego, aumentar o rendimento das famílias e contribuir para o bem-estar e justiça social.

 

A energia passa a ser um instrumento competitividade e geração de rendimento e não apenas um serviço básico. E é precisamente aí que o impacto da transição energética se torna visível na vida das pessoas.

 

Parece que estamos a falar de uma mudança de fase na transição energética destes países.


Sem dúvida. Estamos a sair de uma lógica centrada apenas no acesso para uma lógica onde a energia é um activo económico, de exportação e de integração regional, mas também um motor de emprego, industrialização verde, digitalização e competitividade.

 

E talvez essa seja a principal mensagem deste episódio: o sucesso da transição energética já não será medido apenas pela quantidade de energia produzida, mas pela capacidade de transformar essa energia em oportunidades para as pessoas, para as empresas e para os países.