GreenLight Africa e a transição energética em Moçambique
Desde 2010, a GreenLight Africa tem contribuído para moldar o mercado moçambicano das energias renováveis através do apoio à formulação de políticas e regulamentos, do desenvolvimento de projetos e da implementação prática.
Nesta entrevista, Boris Atanassov (Fundador e Director da GreenLight Africa) partilha o contributo da empresa ao longo de 16 anos e o seu actual foco nos usos produtivos da energia, no empreendedorismo rural, nos transportes sustentáveis e nos biocombustíveis.
A GreenLight Africa trabalha em Moçambique desde 2010. Como evoluiu a empresa ao longo destes 16 anos?
A GreenLight surgiu numa altura em que o mercado moçambicano das energias renováveis ainda se encontrava numa fase inicial. Existiam recursos promissores e grandes necessidades de desenvolvimento, mas havia poucos dados de mercado, poucos modelos de negócio estabelecidos e um quadro regulamentar incompleto. O nosso papel inicial centrou-se, por isso, na investigação, nos estudos de viabilidade e no desenvolvimento do mercado.
Com o tempo, evoluímos para uma empresa de consultoria, desenvolvimento de projectos e investimento capaz de apoiar uma iniciativa desde a primeira avaliação no terreno até à concepção de políticas, modelação financeira, desenvolvimento empresarial e implementação. Temos trabalhado com instituições públicas, parceiros de desenvolvimento, investidores e empresas locais, ao mesmo tempo que construímos uma equipa multidisciplinar moçambicana e uma rede mais ampla de especialistas. Esta combinação de conhecimento local e normas técnicas internacionais continua a ser central no nosso trabalho.
A mudança mais importante é que as energias renováveis são hoje encaradas como uma componente central do desenvolvimento económico de Moçambique. O debate já não se limita ao acesso à electricidade. Abrange o crescimento industrial, a produtividade agrícola, a cozinha limpa, os transportes, o financiamento climático e a competitividade das empresas locais. O trabalho da GreenLight expandiu-se no mesmo sentido.
Que realizações representam melhor o contributo da GreenLight para o sector das energias renováveis?
Um dos nossos trabalhos de referência foi a assistência técnica prestada ao Programa de Leilões de Energias Renováveis de Moçambique, o PROLER. O programa criou um quadro de contratação competitiva para produtores independentes de energia de grande escala e ajudou a estabelecer uma via mais clara para o investimento privado na produção solar e eólica. A GreenLight contribuiu com conhecimento local e experiência ambiental e social no âmbito da equipa alargada de assistência técnica.
Apoiámos também o mercado fora da rede através de estudos de pré-viabilidade para 30 locais destinados a mini-redes, avaliações de mercado, mecanismos tarifários e de concurso, bem como do trabalho de investigação e políticas públicas do programa BRILHO. Na área da cozinha limpa, o nosso envolvimento inicial no mercado do etanol para cozinhar ligou a produção de mandioca por pequenos agricultores ao processamento de combustível e aos consumidores urbanos. O projecto chegou a mais de 40.000 utilizadores de fogões e abasteceu-se de mandioca através de uma rede de aproximadamente 13.000 agricultores.
Estes trabalhos diferem em escala, mas partilham um objectivo comum: criar a base de informação, as regras e os modelos de implementação necessários ao investimento. Temos igual orgulho nos profissionais que desenvolveram a sua experiência na GreenLight e que hoje contribuem para o sector energético em Moçambique.
A GreenLight contribuiu para regulamentos energéticos e estratégias nacionais. Por que razão este trabalho tem sido importante?
Os projectos não conseguem ganhar escala quando os investidores, as instituições públicas e as comunidades não dispõem de regras claras. A GreenLight apoiou trabalhos relacionados com a Lei de Electricidade, o Regulamento de Energia Fora da Rede, as tarifas e os concursos para mini-redes, a produção distribuída, a Estratégia Nacional de Cozinha Limpa e o desenvolvimento do sector dos biocombustíveis.
O regulamento de energia fora da rede aprovado em 2021 foi particularmente importante porque criou um quadro mais claro para a participação privada em mini-redes e noutros serviços energéticos fora da rede nacional. O nosso papel tem consistido frequentemente em ligar o trabalho jurídico e de políticas públicas à informação recolhida no terreno: o que os clientes podem pagar, o que os promotores precisam para alcançar a viabilidade financeira e quais as salvaguardas que o Governo deve assegurar.
Uma regulamentação sólida só é útil se puder ser implementada. Por isso, combinamos a assessoria em políticas públicas com investigação de mercado, análise financeira, capacitação e ferramentas práticas para reguladores e outras instituições.
Porque é que o uso produtivo da energia é hoje uma prioridade para a GreenLight?
O acesso à electricidade tem maior valor quando aumenta os rendimentos e melhora os serviços essenciais. Esta é a base do uso produtivo da energia, ou UPE. Nas zonas rurais, a energia pode alimentar sistemas de irrigação, moagem, secagem, refrigeração e outros equipamentos que ajudam as pequenas empresas a produzir mais, reduzir perdas e melhorar a qualidade dos produtos.
Para a GreenLight, a maior oportunidade encontra-se no nexo entre energia e agricultura. Muitas comunidades rurais já produzem culturas agrícolas, pescado ou produtos pecuários, mas perdem valor porque o processamento, a refrigeração, o armazenamento e o transporte são limitados. As energias renováveis podem responder simultaneamente a vários destes constrangimentos. A irrigação solar pode aumentar a produção, os moinhos e secadores solares podem apoiar o processamento local, a refrigeração pode reduzir as perdas por deterioração e soluções adequadas de mobilidade eléctrica podem ajudar a levar os produtos locais ao mercado.
A tecnologia é apenas uma parte do modelo. Os equipamentos têm de ser acessíveis, as empresas precisam de mercados viáveis e os utilizadores necessitam de competências para operar e manter os activos. O nosso trabalho actual combina, por isso, tecnologia energética com financiamento, desenvolvimento empresarial e ligações ao mercado.
De que forma o projecto-piloto da OIM em Sofala aplica esta abordagem?
A GreenLight está a trabalhar com a Organização Internacional para as Migrações num fundo-piloto que introduz equipamentos para usos produtivos da energia em comunidades reassentadas na província de Sofala. As tecnologias iniciais incluem irrigação solar e refrigeração solar, seleccionadas por responderem a limitações práticas enfrentadas pelos agricultores e pelas pequenas empresas.
Os equipamentos utilizam a funcionalidade pay-as-you-go, ou pagamento em função da utilização, para reduzir o investimento inicial e permitir que os utilizadores paguem ao longo do tempo. Esta componente é importante, mas o financiamento, por si só, não é suficiente. O projecto-piloto inclui também formação em desenvolvimento empresarial para que as empresas participantes possam melhorar a gestão de registos, a definição de preços, a utilização e manutenção dos equipamentos e o planeamento de mercado. Uma gestão empresarial mais sólida deverá ajudá-las a utilizar os activos de forma mais produtiva e a cumprir as suas obrigações de pagamento.
O projecto-piloto foi concebido para testar um modelo completo de implementação, em vez de se limitar à distribuição de equipamentos. Pretendemos compreender quais as tecnologias, condições de financiamento e serviços de apoio que funcionam melhor nestas comunidades e o que será necessário para expandir o modelo de forma responsável.
O que está a GreenLight a desenvolver com a UNICEF na província da Zambézia?
A iniciativa da UNICEF também utiliza a energia para fins produtivos com vista à criação de empresas locais, ligando directamente o acesso à energia aos sistemas alimentares locais e à nutrição infantil. O projecto apoia empresas que irão transformar culturas produzidas localmente em ingredientes de maior valor acrescentado e papas nutritivas para crianças.
A GreenLight está a introduzir moinhos alimentados por energia solar e secadores solares. A moagem permite processar as culturas locais mais perto dos locais de produção, enquanto a secagem pode melhorar a conservação, reduzir as perdas pós-colheita e assegurar uma produção mais uniforme. As empresas precisarão de modelos operacionais adequados, controlos de qualidade, planeamento de mercado e apoio técnico, pelo que o nosso trabalho considera todo o sistema empresarial associado aos equipamentos.
Este projecto ilustra a importância do nexo entre energia e agricultura. Uma única intervenção pode apoiar os agricultores locais, criar empresas rurais, reter mais valor na comunidade e contribuir para a disponibilidade de alimentos nutritivos produzidos localmente.
Como se enquadram os transportes sustentáveis e os biocombustíveis na actual estratégia da GreenLight?
Os transportes são um elo em falta em muitas cadeias de valor rurais. A produção e o processamento podem melhorar, mas as empresas continuam a precisar de uma forma acessível de chegar aos compradores. Estamos, por isso, a explorar a mobilidade eléctrica como parte do sistema de uso produtivo da energia, com soluções adequadas ao transporte de produtos locais entre explorações agrícolas, unidades de processamento e mercados. O objectivo é ligar a electricidade renovável, os equipamentos produtivos e o transporte de última milha num modelo de negócio prático.
Os biocombustíveis são outra área de trabalho de longa data para a GreenLight. A nossa experiência começou com o bioetanol para soluções de cozinha limpa e expandiu-se para o biodiesel e o bioetanol destinados à mistura com combustíveis fósseis. Temos apoiado o Governo e intervenientes do sector privado com avaliações de mercado, estudos de viabilidade, desenvolvimento de matérias-primas, implementação de projectos e o planeamento necessário para um programa nacional de mistura.
Estamos também a analisar a oportunidade de longo prazo associada ao combustível sustentável para aviação. Moçambique dispõe de recursos agrícolas e de potenciais matérias-primas, mas o desenvolvimento deve assentar em normas de sustentabilidade credíveis, salvaguardas de segurança alimentar, cadeias de abastecimento fiáveis e processos comercialmente viáveis. O nosso papel é ajudar a transformar esse potencial em projectos e políticas que possam merecer o apoio dos investidores, do Governo e das comunidades.
O que definirá as prioridades da GreenLight na próxima fase?
A nossa prioridade é implementar ideias comprovadas a uma escala maior. No uso produtivo da energia, isso significa desenvolver estruturas de financiamento que as pequenas empresas consigam suportar, reforçar os fornecedores locais e os prestadores de serviços e utilizar os dados dos projectos-piloto para conceber programas que possam ser replicados noutras províncias.
Continuaremos a trabalhar nas áreas de políticas públicas, desenvolvimento de projectos e investimento, porque Moçambique necessita das três. Regulamentos claros criam confiança, projectos bem preparados atraem capital e empresas locais sólidas transformam as infraestruturas em actividade económica duradoura. O financiamento climático pode ajudar a reduzir as barreiras de custo, mas deve estar associado a modelos de negócio viáveis e a serviços mensuráveis para as comunidades.
A GreenLight aprofundará também o seu trabalho em mobilidade eléctrica e biocombustíveis, mantendo a sua actividade consolidada na produção de energia renovável, na energia fora da rede e nos serviços ambientais. Estamos disponíveis para colaborar com os membros da ALER e outros parceiros que possam trazer tecnologia, financiamento e experiência de implementação para Moçambique e para o mercado lusófono em geral.
