Moçambique em números: acesso à energia, renováveis e investimento
“Em Perspectiva” é a nova rubrica de opinião da ALER, onde são analisados os últimos acontecimentos, tendências e debates que estão a moldar o sector da energia nos países de língua portuguesa.
Nesta edição, Isabel Cancela de Abreu, Directora Executiva da ALER, analisa os principais dados do “Resumo: Renováveis em Moçambique 2025”, lançado durante a RENMOZ 2026, e reflecte sobre o que estes números nos dizem sobre a evolução da transição energética no país.
Aborda os progressos no acesso à electricidade, o crescimento previsto da capacidade instalada, o papel das energias renováveis, as soluções fora da rede, os desafios de financiamento e as oportunidades de investimento apresentadas durante a RENMOZ.
A conversa que dá origem a este artigo está também disponível em formato podcast, no Spotify.
Isabel, a RENMOZ 2026 reuniu mais de 600 participantes e ficou marcada por vários anúncios, acordos e oportunidades de investimento. Depois destes dois dias de conferência, qual a principal mensagem que retiraste desta edição?
Acho que a principal mensagem é que Moçambique está a entrar numa nova fase da sua transição energética.
Durante muitos anos falámos sobretudo do enorme potencial energético do país. Depois, o foco passou para a criação do enquadramento regulatório e, mais recentemente, para a Estratégia de Transição Energética.
Nesta edição da RENMOZ senti uma mudança muito clara. A conversa deixou de estar centrada no potencial e passou a estar centrada na implementação: nos projectos que estão preparados para avançar, na forma como vão ser financiados e nos mecanismos para a sua contratação.
Foi precisamente isso que permitiu anunciar novos concursos públicos, assinar acordos de financiamento e apresentar programas estratégicos para os próximos anos.
No seu conjunto, estes desenvolvimentos mostram um sector mais maduro e cada vez mais focado em transformar potencial em resultados concretos, sobretudo numa altura em que a meta do acesso universal à energia em 2030 se aproxima e em que as condições para que Moçambique se posicione como futuro hub energético da região estão reforçadas.
Foi também durante a RENMOZ que lançámos a nova edição do “Resumo: Renováveis em Moçambique”, uma publicação que ajuda precisamente a perceber onde o país está hoje e como estas políticas começam a traduzir-se em resultados.
E olhando para os dados do Resumo, qual é o indicador que melhor retrata o momento que o sector está a viver?
Há vários números muito relevantes, mas talvez começasse pela evolução da taxa de electrificação.
Em 2025, Moçambique atingiu 66,4% de acesso à electricidade, o que significa que, em apenas seis anos, praticamente duplicou a taxa de electrificação e tem conseguido manter-se acima das projecções.
Esse progresso traduz-se num dado muito concreto: só em 2025 foram realizadas cerca de 436 mil novas ligações à rede eléctrica. Este número é particularmente importante porque o país precisa de realizar cerca de 440 mil ligações por ano para atingir a meta de acesso universal até 2030. Ou seja, já está muito próximo do ritmo necessário para cumprir esse objectivo.
Ao mesmo tempo, os dados mostram que este progresso ainda não é homogéneo. Há províncias, como Maputo, com níveis de electrificação próximos dos 97%, enquanto outras continuam abaixo dos 40%.
Por isso, o próximo desafio já não será apenas aumentar o acesso à electricidade, mas garantir que esse acesso chega de forma mais equilibrada a todo o território, recorrendo também a soluções fora da rede para as zonas rurais.
Mas o acesso à electricidade é apenas uma parte da história. O Resumo mostra que existe uma oportunidade muito maior para aumentar a utilização da electricidade na economia.
Exactamente. Quando analisamos o consumo final de energia percebemos que a electricidade representa apenas 13% do consumo final total.
Isto revela que existe ainda um enorme potencial para electrificar actividades económicas e substituir combustíveis, por exemplo nos transportes com a mobilidade eléctrica, na cozinha limpa com fogões eléctricos ou em equipamentos agrícolas, industriais e comerciais baseados em geradores a diesel.
A própria Estratégia de Transição Energética prevê que a electricidade represente 44% do consumo final de energia até 2050, uma evolução totalmente em linha com a recente meta avançada pela presidência da COP31 de aumentar a percentagem de electricidade no consumo final de 35% até 2035.
Por isso, a grande questão já não é apenas levar electricidade às populações. É utilizar essa electricidade para diversificar e inovar o mix energético e com isso acelerar o desenvolvimento económico, industrialização verde e usos produtivos para gerar negócios e criar emprego por todo o país.
Outro dado impressionante é a evolução prevista da capacidade instalada. O que nos dizem esses números?
Actualmente o país dispõe de cerca de 3.000 MW de capacidade instalada, mas a previsão é atingir cerca de 9.500 MW até 2032. Estamos a falar de mais do triplo da capacidade actual em apenas 5 anos.
Mas mais interessante do que o crescimento é perceber como ele vai acontecer. A energia hídrica continuará a representar a maior fatia da nova capacidade, com cerca de 2.300 MW adicionais. A energia solar deverá acrescentar aproximadamente 1.000 MW e a energia eólica, que hoje praticamente não existe no sistema elétrico moçambicano, deverá atingir cerca de 340 MW.
Estes números mostram que Moçambique não está apenas a aumentar a capacidade de geração. Está também a construir um sistema eléctrico mais diversificado e preparado para integrar um número crescente de fontes renováveis.
E isso traduz-se também num peso cada vez maior das energias renováveis no sistema eléctrico.
Sem dúvida. Hoje, as energias renováveis já representam cerca de 65% da geração eléctrica destinada ao consumo interno e as projecções apontam para cerca de 80% em 2032.
Isto é particularmente relevante porque poucos países conseguem combinar simultaneamente três objectivos: expandir rapidamente o acesso à electricidade, triplicar a capacidade instalada e gerir um sistema eléctrico fortemente baseado em fontes renováveis.
O potencial renovável de Moçambique é sobejamente conhecido. O verdadeiro desafio está agora em transformar esse potencial em projectos e esses projectos em desenvolvimento económico e social.
E os dados do resumo mostram que esse caminho já começou.
Moçambique está a criar condições para responder ao crescimento da procura interna, apoiar a industrialização e, ao mesmo tempo, reforçar o seu papel como fornecedor de energia para a região.
Mas a transição energética não passa apenas pela geração centralizada de electricidade.
Sim, e essa tem sido uma das mensagens mais importantes deste Resumo. A transição energética também passa pela electrificação fora da rede e pelo acesso a soluções de cozinha limpa, que são fundamentais para melhorar a qualidade de vida de milhões de moçambicanos, sobretudo nas zonas rurais.
Hoje, Moçambique conta com 113 mini-redes, que representam cerca de 11,7 MW de capacidade instalada. Espera-se agora um novo impulso neste segmento, com um modelo que atribui ao FUNAE um papel de facilitador e gestor de fundos, enquanto a implementação passa progressivamente para o sector privado através de concursos públicos.
Os sistemas solares caseiros são outra peça essencial desta estratégia. Já foram vendidos cerca de 860 mil sistemas, permitindo levar electricidade a comunidades onde a rede ainda não chega. Apesar do crescimento registado nos últimos anos, o mercado tem vindo a abrandar, mostrando como continua dependente dos programas de apoio e da existência de um enquadramento fiscal mais favorável.
Na cozinha limpa, já foram distribuídos cerca de 939 mil fogões melhorados, mas o desafio continua a ser muito significativo. Em 2023, apenas cerca de 17% da população tinha acesso a soluções de cozinha limpa. A aceleração deste mercado dependerá do contributo do GPL, de medidas fiscais, mas também do aproveitamento de novos mecanismos de financiamento, como os mercados de carbono.
Porque, no final, a transição energética não se mede apenas em megawatts instalados. Mede-se pelo impacto que a energia tem na vida das pessoas: na melhoria das condições de vida, na criação de oportunidades para desenvolver actividades económicas, gerar rendimento e emprego.
É essa a verdadeira energia para o desenvolvimento que queremos promover.
Há um tema que surge repetidamente em quase todas as discussões do sector: o financiamento. Continua a ser o principal desafio?
Nos fóruns de energia costumamos dizer frequentemente que o financiamento existe, o que falta são projectos bancáveis.
Um dos resultados mais relevantes da RENMOZ foi precisamente demonstrar que Moçambique possui um pipeline cada vez mais estruturado, diversificado e bancável de projectos.
Durante as Business Sessions da RENMOZ, a EDM, o FUNAE, a ARENE, a HCB e o GMNK apresentaram projectos nas áreas da geração, transmissão e electrificação fora da rede que representam vários milhares de milhões de dólares de investimento.
Ter estes projectos identificados, estruturados e apresentados ao mercado é um passo essencial para atrair financiadores.
E esse interesse foi bem visível durante a conferência. Cerca de um quarto dos participantes eram instituições financeiras ou parceiros de desenvolvimento.
Mais importante ainda, esse interesse traduziu-se em resultados concretos, com a assinatura do Subsidiary Agreement entre a Enabel e o FUNAE e do acordo de financiamento da ElectrFI à Source Energia.
Ou seja, a RENMOZ mostrou que existe financiamento disponível quando existem projectos credíveis e preparados para avançar.
E olhando novamente para o Resumo, que pistas encontramos sobre o caminho que Moçambique terá de seguir para mobilizar o investimento necessário à concretização desses projectos?
A principal mensagem é que a dimensão do desafio financeiro é enorme.
A Estratégia de Transição Energética estima necessidades de investimento de cerca de 18,6 mil milhões de dólares até 2030 e de mais de 80 mil milhões até 2050. Isto mostra que a transição energética só será possível combinando diferentes fontes de financiamento.
Nos últimos anos aumentou o apoio dos parceiros de desenvolvimento às energias renováveis, mas prevê-se que esses fluxos venham a diminuir com o fim dos actuais ciclos de financiamento. Ao mesmo tempo, a capacidade de investimento público continua condicionada pelas limitações orçamentais e pelo elevado nível da dívida pública.
Por isso, será essencial reforçar o papel do sector privado.
Entre 2013 e 2024, cerca de 20% dos 755 milhões de dólares investidos em energias renováveis tiveram origem em capital privado. É um sinal positivo, mas ainda insuficiente face às necessidades.
O caminho passa por utilizar o financiamento público e a cooperação para reduzir o risco dos projectos e mobilizar mais investimento privado, através de crédito em moeda local.
As primeiras linhas de crédito dedicadas ao sector já mostram resultados encorajadores. O passo seguinte será alargar estas soluções a mais instituições financeiras e a diferentes segmentos do mercado, como o autoconsumo, complementando-as com instrumentos como o microcrédito ou o crowdfunding.
No fundo, o financiamento público continuará a ser essencial, mas cada vez mais como um catalisador para mobilizar investimento privado.
Assim sendo, quando olhas para o sector hoje, quais são os sinais que te deixam mais optimista em relação ao futuro?
O que me deixa mais optimista é perceber que começamos finalmente a ver todas as peças da transição energética a avançar ao mesmo tempo e estamos a entrar numa fase de implementação.
Graças à RENMOZ 2026 conseguimos centrar o debate em projectos concretos, concursos lançados, e financiamento mobilizado.
Ao mesmo tempo, demonstrámos que existe uma visão estratégica clara, um enquadramento regulatório que continua a evoluir e uma participação cada vez maior do sector privado e dos parceiros de desenvolvimento.
Naturalmente, continuam a existir desafios importantes, sobretudo na mobilização de financiamento e na capacidade de executar os projectos ao ritmo necessário.
Mas esses desafios são hoje muito diferentes dos que existiam há cinco ou dez anos.
Os resultados atingidos até à data, anunciados no RENMOZ e espelhados nos indicadores do Resumo, mostram-nos que podemos olhar para o futuro com esperança e confiança na capacidade de execução tanto do sector público como sector privado em Moçambique.
