Relatório Tracking SDG7 2026 revela realidades distintas no acesso à energia nos países de língua portuguesa
O mais recente relatório Tracking SDG7: The Energy Progress Report 2026, publicado pela IRENA, Agência Internacional de Energia (IEA), Divisão de Estatística das Nações Unidas (UNSD), Banco Mundial e Organização Mundial da Saúde (OMS), confirma que o progresso global rumo ao Objectivo de Desenvolvimento Sustentável 7 (ODS7) continua insuficiente para garantir o acesso universal a energia sustentável até 2030. Em 2024, cerca de 655 milhões de pessoas permaneciam sem acesso à electricidade e aproximadamente 2 mil milhões continuavam dependentes de combustíveis e tecnologias poluentes para cozinhar.
Entre os países de língua portuguesa, os dados revelam uma realidade marcada por fortes contrastes. Enquanto Portugal, Brasil, Cabo Verde e Timor-Leste se encontram próximos ou já atingiram níveis de acesso universal à electricidade, vários países africanos continuam a enfrentar desafios significativos, sobretudo nas zonas rurais.
Em 2024, Portugal manteve acesso universal à electricidade, enquanto o Brasil registou uma taxa de 99,8% e Cabo Verde de 98,4%. Timor-Leste apresentou igualmente um nível elevado de electrificação, com 94,3% da população com acesso. Em contrapartida, São Tomé e Príncipe (77,7%), Guiné Equatorial (65,2%), Angola (55,5%), Guiné-Bissau (43,7%) e Moçambique (36,9%) continuaram a registar níveis de acesso substancialmente mais baixos.
De notar que, no caso de Moçambique, os dados do Tracking SDG7 diferem dos números mais recentes reportados pelas autoridades nacionais. De acordo com o Resumo: Renováveis em Moçambique 2025, publicado pela ALER e AMER, a taxa de electrificação nacional atingiu 66,4% em 2025.
Comparando com os dados de 2023, destacam-se os progressos registados em Angola, que passou de 51,1% para 55,5% de acesso à electricidade, e na Guiné-Bissau, que evoluiu de 40,5% para 43,7%. Por outro lado, o relatório aponta ligeiros recuos em São Tomé e Príncipe, de 81,3% para 77,7%, e em Timor-Leste, de 100% para 94,3%.
Os desafios tornam-se ainda mais evidentes quando analisadas as diferenças entre zonas urbanas e rurais. Em Angola, a taxa de acesso à electricidade atinge 78% nas áreas urbanas, mas desce para apenas 1,3% nas áreas rurais. Na Guiné Equatorial, os níveis de acesso são de 89,3% nas cidades e apenas 5,1% nas zonas rurais. Moçambique apresenta igualmente uma forte disparidade, com 79,8% de acesso urbano face a 12,3% no meio rural. Estes dados demonstram a importância das soluções descentralizadas, como mini-redes e sistemas solares autónomos, para acelerar a electrificação das comunidades mais remotas.
O relatório Tracking SDG7 2026 confirma também que Moçambique e Angola continuam entre os países com maiores défices de acesso à electricidade a nível mundial. Em 2024, cerca de 21,9 milhões de moçambicanos e 16,9 milhões de angolanos permaneciam sem acesso à electricidade. A Guiné-Bissau continua igualmente entre os 20 países com maiores défices de electrificação, registando cerca de 1,24 milhões de pessoas sem acesso.
Se o acesso à electricidade continua a representar um desafio importante, a situação é ainda mais exigente no domínio da cozinha limpa. Em 2024, Portugal (98,8%), Brasil (97,5%) e Cabo Verde (88,5%) registaram níveis elevados de acesso a combustíveis e tecnologias limpas para cozinhar. Já Angola (56%), Guiné Equatorial (50%), Timor-Leste (18,6%), Moçambique (7,7%), São Tomé e Príncipe (6,5%) e Guiné-Bissau (2,1%) permaneceram bastante abaixo desses níveis.
Particularmente preocupante é o caso de Moçambique, identificado pelo relatório entre os países onde menos de 10% das famílias utilizam combustíveis limpos para cozinhar. Apesar disso, praticamente todos os países de língua portuguesa registaram melhorias face a 2023, ainda que a um ritmo insuficiente para assegurar o acesso universal até ao final da década.
No que respeita às energias renováveis, os países de língua portuguesa apresentam, em geral, um desempenho positivo. Em 2023, a quota de energias renováveis no consumo final de energia atingiu 84,6% na Guiné-Bissau, 76,1% em Moçambique, 50,2% no Brasil e 49,9% em Angola. Portugal registou uma quota de 35,4%, São Tomé e Príncipe de 40,3% e Cabo Verde de 22,8%, enquanto Timor-Leste (9,8%) e Guiné Equatorial (4,5%) apresentaram valores mais reduzidos. De notar que os elevados valores da quota de renováveis em países africanos como a Guiné Bissau, Moçambique, Angola ou São Tomé e Príncipe reflectem uma situação preocupante de dependência da biomassa sólida para cozinhar.
O Brasil continua a destacar-se à escala internacional. Entre as maiores economias mundiais, é um dos países com maior incorporação de renováveis na matriz energética, sustentada pela utilização de energia hídrica, biomassa e biocombustíveis. Segundo o relatório, os biocombustíveis representam 99% da energia renovável utilizada no sector dos transportes brasileiro, contribuindo para que o país se mantenha entre os líderes mundiais em renováveis modernas.
O financiamento internacional continua igualmente a desempenhar um papel determinante na transição energética. Desde 2010, o Brasil captou cerca de 8,8 mil milhões de dólares e Angola aproximadamente 6,5 mil milhões de dólares em compromissos de financiamento público internacional para energias renováveis. Em 2024, Angola destacou-se como um dos principais destinatários destes fluxos financeiros, beneficiando de um empréstimo de 778 milhões de dólares para o desenvolvimento de infra-estruturas de transmissão eléctrica. No mesmo período, o Banco do Brasil recebeu uma linha de crédito de 512 milhões de dólares destinada ao financiamento de projectos de energias renováveis.
Os dados do Tracking SDG7 2026 mostram assim que os países de língua portuguesa avançam a várias velocidades. Enquanto alguns países já se aproximam da universalização do acesso à energia, outros continuam a enfrentar desafios estruturais de electrificação e acesso a cozinha limpa. Ao mesmo tempo, a elevada participação das energias renováveis em vários destes mercados demonstra o potencial do espaço da CPLP para contribuir para os objectivos globais de descarbonização. Neste contexto, a mobilização de financiamento, o reforço das infra-estruturas energéticas e a expansão da electrificação e da cozinha limpa continuarão a ser factores decisivos para acelerar transições energéticas sustentáveis e inclusivas nos países de língua portuguesa.
